Paralelos


Então respirava eu o mesmo ar que te rodeava

O vento que resvalava em teus pés

Era o mesmo responsável por refrescar meu corpo

Minha pele sentia o toque da tua carne

Enquanto os nossos cheiros se confundiam em um só


Então ficávamos nós em horizontal

Os olhos fitando o teto cinza de simetria invejável

Era a sintonia que achávamos ter

Foi a equivalência que eu desejava

    

Então permanecia a insistência

As mãos se acorrentavam uma à outra

Ao mesmo tempo em que o estômago se alimentava

De uma esperança - às vezes insossa

Noutras, amarga


Então os pensamentos não se fizeram mais análogos

A visão seguiu em direção oposta

E o que eu sentia ao meu lado deixou de ser carne

Para ser vazio


O espaço de tempo fez surgir o meio do espaço

E na rachadura sucumbiu-se o que era nós

Caímos, entretanto, em fissuras diferentes

E, de repente, já não conseguia mais te enxergar


Senti assim o ar me faltar novamente

Mas o vento que soprava em meu rosto

Era o mesmo que me afastava cada vez mais de ti

Vi minha pele se descascar

Enquanto o único cheiro que sentia

Era o da solidão


Agora caio em queda livre

Sem espaço, sem tempo, sem olhar

Debater-se é querer alcançar

O que as mãos deixaram escapar ao esforço do suor

                

E então rejeitou o estômago o único prato que lhe serviam

E então partiu-se ao meio o nosso horizonte

Formou-se então em si dois paralelos

Mostrou-se então para mim a impossibilidade de voltarem a se cruzar.


- K


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